11/07/2023

     Hoje estava arrumando um quarto da casa que eu quase nunca entro. Para isso, abri a janela para deixar entrar um pouco de sol, liguei minhas músicas favoritas e comecei a arrumação.

    Em um milissegundo em que parei para observar o andamento do meu trabalho, vi de canto de olho, pela janela, um ônibus descendo uma rua íngreme, ao longe na paisagem.

    Imediatamente fui transportada para o ano de 2013. Morava em outra cidade, em uma rua íngreme e cheia de árvores como a que estava vendo, por onde também desciam ônibus apressados como aquele que estava passando.

    Aqui dentro o tempo presente diante do meu próprio passado descendo a rua, junto com o ônibus.

    O contraste é tremendo. São exatos 10 anos de diferença. Eu tinha todo o meu futuro pela frente e estava me preparando para colher os frutos que estava plantando.

    Alguns frutos já foram comidos, outros apodreceram, alguns nem vingaram. Olho para dentro de mim e percebo que tudo já foi consumido, de uma forma ou de outra. Que preciso agora plantar novos frutos se quiser continuar sobrevivendo.

    Já não tenho a mesma energia e otimismo de antes. Tenho mais maturidade para perceber que a sorte só aparece de vez em quando e que, talvez, ela não volte a bater na minha porta. Que quanto mais velha fico, mais preciso me esforçar para conseguir alcançar algum objetivo.

    Continuo olhando pela janela, o ônibus já se foi. Penso com carinho na minha versão 10 anos mais nova, 10 kg mais magra, 3,5 mil reais/mês mais pobre, mas infinitamente mais feliz.

    Fico feliz por ter aproveitado todos os caminhos pelos quais percorri, por ter vivido as experiências que vivi, ter feito conexões com as pessoas que convivi.

    Sinto saudade de tudo aquilo, aquela vida era mais simples e feliz. A música muda. Ela me lembra de um momento entre lá e cá que me traz muita dor. Desperto para a vida. Troco de música e volto a arrumar o quarto.

    Parece que, assim que acordei para a vida, a vida acordou para mim. Há muito caminho para percorrer e memórias para criar. Não tenho tempo a perder. Já não tenho mais nada a perder.

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