07/07/2023
Acordei muito antes do despertador. A insônia é uma das minhas melhores amigas desde sempre. Desde criança aprendi que ela só quer um pouco de atenção.
Dei a atenção que ela queria: não acendi as luzes, como ela gosta, fui para a sacada procurar a lua. Lá estava ela. Linda como sempre. Fechei os olhos e senti a brisa gelada de inverno percorrer meu rosto, meus braços e minhas pernas desnudos. Senti aquele arrepio que a insônia gosta. Voltei a deitar-me.
O contraponto entre o frio da brisa e o quentinho da coberta sempre diverte meu corpo. Meus pés são sempre os últimos a esquentar. No momento em que cedem, volto a dormir.
Dessa vez desperto com um som diferente. Depois de quase quatro anos morando aqui e muita atenção, já sei quais pássaros cantam nesse horário. Há um canto diferente. Saio correndo depressa e abro a porta com cuidado para não espantar o dono da melodia. Não é o canto da andorinha.
Penduro-me no parapeito da sacada. Está claro demais e vejo estrelinhas à plena luz do dia. Fecho os olhos incomodados, mas de ouvidos sempre atentos. Também não é a viuvinha.
Aos poucos acostumo-me à claridade e abro os olhos, procurando nas árvores, nos fios, nos cimos das casas. Cambacica não é.
Logo ele sai do meio dos galhos e para no fio à minha frente. Mas é claro! Como não reconheci o canto do tecelão?
Lá está ele, o melro negro com asinha amarela. O japim-soldado marchando em direção ao dia. Tão logo chegou e já se foi.
Continuo no sol observando os pardais, pombas, bem-te-vis, andorinhas (que definitivamente não deviam, mas já estão de volta). Ouvindo o som das motos, dos carros, dos ônibus. A cidade já despertou há muito tempo.
Aos poucos me recordo que sonhei com teatro, chocolate, amigos. É sexta-feira. Decido que vai ser boa. Ainda bem que sou teimosa.
Já ficou calor demais, entro para começar a viver. Dessa vez aqui dentro está frio. Sinal para me mexer. E lá vou eu, como o tecelão, marchando em direção ao dia.
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